pequenitudes - crônicas das pequenas atitudes humanas
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

anima ferida

"quer aquela boneca, filha?", era uma voz grave e áspera. vi que era um homem enorme, musculoso e viril, semblante sério e postura exageradamente máscula. segurando sua mão, uma menininha franzina e delicada com vestido cor-de-rosa e cabelos enfeitados por um laço.

eu me aproximei da vitrine e o vi olhando para as bonecas com olhos tristes. sua garganta parecia se contorcer, como se quisesse chorar ou evitar que algo saísse. ele se virou para mim sorrindo, uma lágrima escorrendo do olho esquerdo, e me disse com voz perturbadoramente suave, que não lembrava em nada o som que eu acabara de ouvir:

"a maior surra que eu levei na minha vida foi do meu pai, no dia em que eu brinquei com as bonecas da minha irmã".

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ogonia

"hesíodo, meu filho, venha cá."

"que é, pai?"

"procure aí no dicionário a palavra 'ogonia'."

"hum... é... não tem essa palavra aqui não, pai."

"estranho, nessa música tem um trecho que diz: 'sozinho no escuro / qual bicho do mato / sem ter ogonia / sem parede nua / pra se encostar'. mas eu nunca encontrei essa palavra 'ogonia' em nenhum dicionário."

"pai, é teogonia."

"e o que é 'teogonia', hesíodo?"

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Choro

Eram onze horas, e ele tinha medo do escuro.
- Vai, filho. Pega a bola. Vai.
O bebê correu com os olhinhos fechados pelo beco da casa, e sentiu a bola bater nos pés. A bola se distanciou ainda mais.
- Vai bebê, vai! Não tenha medo! Se você quiser mesmo a bola, você consegue!
O bebê parou. Caiu no choro, olhando para o pai, à distância.
O pai correu e pegou ele nos braços, acalentando-o. Depois, foi até a bola, pegou e entregou ao bebê.
"É", teria pensado o bebê, os olhos cheios de lágrimas. "Eu conheço um meio mais fácil de conseguir o que quero."

sábado, 13 de março de 2010

verdade

"eu sou o caminho, a verdade e a vida."

"a verdade? o que é a verdade?"

"..."

"e então, o que é a verdade?"

"já disse que sou eu, porra."

"minha mãe me ensinou outra coisa sobre a verdade."

"'honrarás pai e mãe', né?"

"é."

"você conhece bem as leis do meu povo."

"é preciso conhecer bem o povo que se deseja governar."

terça-feira, 17 de novembro de 2009

purificação

"então você decidiu passar pela purificação, mesmo sendo estrangeiro."

"sim, xamã, faz parte do aprofundamento de minha etnografia sobre seu povo."

"esta floresta é sagrada, este portal, de que sou guardião, leva os seres à fonte que jorra o antídoto de suas dores. qualquer um é bem vindo, sr. jacques. as forças da natureza acolhem a todas as suas criaturas. você entende isso?"

"perfeitamente, sr. iodah."

"todos que entram aqui precisam saber exatamente o que lhes aflige a alma. qual é seu problema, sr. jacques?"

"bem, meu problema atual é entender como vocês desenvolveram a técnica de esculpir em pedras..."

"seus olhos dizem outra coisa, sr. jacques."

"..."

"qual é seu problema?"

"meu problema é como me sentir um nativo entre seu povo..."

"sr. jacques, as forças da natureza precisam saber o que aflige sua alma para poder lhe dar o remédio certo."

"..."

"..."

"nunca perdoei meu pai por ter me humilhado naquela noite..."

"agora que, com humildade, admitiu seu problema, permito que entre, sr. jacques."

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

luto

"meu filho, você não está chorando... não está triste com a morte de seu pai?"

"estou, mas meu pai me ensinou a ser forte e a não chorar nas adversidades".

"e você, minha filha, por que está sorrindo? seu pai acabou de falecer..."

"mãe, meu pai me ensinou a me contentar com a beleza da vida e a esquecer as tristezas. hoje é um dia lindo!"

"e você, meu querido, por que está chorando? sente falta de seu pai?"

"estou triste porque, sendo o primogênito, terei mais responsabilidades e perderei minha infância agora que meu pai morreu".