pequenitudes - crônicas das pequenas atitudes humanas
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

anima ferida

"quer aquela boneca, filha?", era uma voz grave e áspera. vi que era um homem enorme, musculoso e viril, semblante sério e postura exageradamente máscula. segurando sua mão, uma menininha franzina e delicada com vestido cor-de-rosa e cabelos enfeitados por um laço.

eu me aproximei da vitrine e o vi olhando para as bonecas com olhos tristes. sua garganta parecia se contorcer, como se quisesse chorar ou evitar que algo saísse. ele se virou para mim sorrindo, uma lágrima escorrendo do olho esquerdo, e me disse com voz perturbadoramente suave, que não lembrava em nada o som que eu acabara de ouvir:

"a maior surra que eu levei na minha vida foi do meu pai, no dia em que eu brinquei com as bonecas da minha irmã".

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

caneta

a menina pegou a caneta e, com a ponta, furou o papel branco. mas assim não dava para averiguar qual era a cor da tinta...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

bolo

depois de acompanhar a mãe na confecção de um bolo, o menino mergulhou no mundo da confeitaria. ao ponto de as professoras solicitarem constantemente que ele incrementasse os comes das festas da escola. o que o foi incitando a desenvolver mais e mais suas habilidades e criações.

a cozinheira da escola vaticinou que ele cresceria para ser um grande chef.

os outros meninos o acusaram de ser mulherzinha.

no aniversário de uma de suas colegas, de pronto seria ele a fazer o bolo. desafiado por seus pares do sexo masculino, ainda não saídos da idade em que meninos odeiam meninas, ele preparou uma traquinagem: um pequeno e bonito bolo especial só para ela. com um acréscimo nojento à massa, que faria os pelos do nariz da menina se arrepiarem.

mas um lapso, causado por uma distração do cachorro sigmund, o fez esquecer o ingrediente extra.

depois da festa, a menina veio agradecer pelo bolo ao seu primeiro amor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

interrupção

"conte uma história!"

"tudo bem. vou lhe contar uma história..."

"é?"

"...uma história sobre uma menina que pediu para lhe contarem uma história..."

"que história?"

"...uma menina que gostava de interromper quando alguém tentava lhe contar..."

"quem é ela?"

quarta-feira, 25 de março de 2009

botão

este botão pode destruir o mundo, disse o general, com voz de trovão vitorioso, em solene uniforme escuro e siso grave.

a menina não conteve o fura-bolo da mão esquerda, com a qual segurava um enorme pirulito colorido. o pequeno botão verde cedeu e uma enorme luz vermelha acendeu.

não, gritou o general, vendo nos monitores que milhões de flores nasciam em todos os campos do mundo, e todos os rostos estavam sorrindo, exceto o do general, que chorava desesperadamente.

desculpe, disse a menina. o estrago já estava feito. sorrindo, ela ofereceu o pirulito ao general. ele caiu morto a esse golpe de misericórdia.