pequenitudes - crônicas das pequenas atitudes humanas
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sábado, 13 de março de 2010

verdade

"eu sou o caminho, a verdade e a vida."

"a verdade? o que é a verdade?"

"..."

"e então, o que é a verdade?"

"já disse que sou eu, porra."

"minha mãe me ensinou outra coisa sobre a verdade."

"'honrarás pai e mãe', né?"

"é."

"você conhece bem as leis do meu povo."

"é preciso conhecer bem o povo que se deseja governar."

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

ilha

batuta no riste trêmulo, a orquestra esperava a primeira ordem.

a mão do maestro estava dura. a orquestra o ameaçava como o oceano, calmo como um tigre pronto para saltar como um tsunâmi sobre a pequena ilha. ele fechou os olhos.

* * *

vito mal chegara da sicília à américa, mal começara a aprender a língua nativa e os outros meninos já se juntavam para o rodear com escárnios.

chegava em casa desolado, isolado, com um misto de tristeza, confusão e curiosidade.

"mãe, o que é carcamano?"

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

pimenta de cheiro

"vá na casa de sua mãe perguntar se ela tem pimenta de cheiro."

"por que, vovó? a sua pimenta tá sem cheiro?"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

luto

"meu filho, você não está chorando... não está triste com a morte de seu pai?"

"estou, mas meu pai me ensinou a ser forte e a não chorar nas adversidades".

"e você, minha filha, por que está sorrindo? seu pai acabou de falecer..."

"mãe, meu pai me ensinou a me contentar com a beleza da vida e a esquecer as tristezas. hoje é um dia lindo!"

"e você, meu querido, por que está chorando? sente falta de seu pai?"

"estou triste porque, sendo o primogênito, terei mais responsabilidades e perderei minha infância agora que meu pai morreu".

domingo, 30 de agosto de 2009

fio

era só um fio de cabelo na sopa. o estrago não era maior do que o do próprio ar ao redor, cheio de poeira e micro-organismos que deitavam e rolavam naquela água quente.

"que nojo! de quem é esse cabelo? se estiver sujo, já estragou a sopa. se estiver limpo, tem shampoo, impróprio para o consumo humano. pode nem ser cabelo da cabeça... ai, não quero nem pensar!"

enquanto derramava a sopa pia abaixo, ouviu a mãe chegar:

"e então, crianças, que acharam da sopa de milho?".