pequenitudes - crônicas das pequenas atitudes humanas
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domingo, 29 de maio de 2016

ventos

- quanto vento, senhor! - disse a menina, olhos na janela.
- quanto frio, eu diria. - disse o idoso, apertando a coberta contra o corpo. - veja só como estou tremendo, imagino que poderia morrer de frio.
- veja só, toda a sala treme! o resto da cidade no calor, e nós aqui, desfrutando dessa belezura!

ela deve ter vinte anos, talvez menos. ele, setenta, quem sabe até oitenta. o que dizem as aparências?
são dezesseis andares, e nenhum dos dois se atreve a fechar a janela. ela, por estar demasiado excitada com a ventania. ele, por estar tremendo além do controle.

- faça-me um favor, e feche a janela -, disse o homem. - o frio é demais para mim.

mas o vento, forte, uivante, calou sua voz antes de chegar aos ouvidos da moça.

momentos depois, chuva. um trovão timidamente ressoou a quilômetros, poucos segundos depois de um feixe de luz cruzar o céu.
o vento se aquietou, e assim também a moça. entediou-se.
o senhor, calado, já não se movia.
adormecera, feliz.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

sono

pela manhã:

"bateu um sono, hem?"

"um-hum..."

pela tarde:

"já vai dormir de novo?"

"tudo que bate volta."

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Descobri tempos depois, que havia o quinto Rei Mago...

Escondido por trás das palhas da manjedoura estava o derradeiro convidado, disse:

“não posso desfazer o feitiço, o rei mago é muito poderoso. Posso apenas amenizar o sofrimento. Sendo assim meu pequeno rei, após a sua morte, todo este povo cairá num sono profundo, geração após geração, até que, uníssonos, digam: eu te amo”.

(Sussurrando no ouvido daquela criança o derradeiro convidado completou:

“não a ti, ao próximo”.)
esta pequenitude é uma continuação de o quarto rei mago, que você pode ler aqui.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Revelação I


Aqui onde me encontro é sombrio e tenebroso. Tenho medo e me retraio ao posto de atalaia que me garante relativa segurança.
Raras vezes vislumbrei uma luz tremeluzente que me deixava feliz embora ignorasse a origem.
Para não me afogar, venço a fadiga e protelo o sono, dia e noite, empenhada em enxugar a água em torno de mim.
Hoje o Marlim azul me segredou que esse lugar se chama mar e que meu nome é peixe.
Ciente da minha nova condição, descartei panos e dores e o escuro do mundo abissal.

Agora cuido de voar e contemplar as estrelas.