pequenitudes - crônicas das pequenas atitudes humanas

terça-feira, 3 de maio de 2016

mindinho

Conheci o fradezinho Dinho, um sujeitinho mirradinho. O homenzinho era um cristão glutão.
E falastrão.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

outros crimes exemplares - a poltrona

tudo começou no dia em que flagrei os dois na cama. fiquei um pouco decepcionado com ela, mas compreendi. deixei os dois sozinhos no quarto e me sentei em minha poltrona na sala para refletir e dar um cochilo.

não houve conversa entre nós, apenas uma cumplicidade pacífica. ela estava feliz com ele, então não me senti tão desconfortável quando o cumprimentei na noite seguinte enquanto ele atravessava minha sala e saía de casa. sentei em minha poltrona enquanto a esperava trocar de roupa no quarto.

ao chegar em casa no dia seguinte fui direto para a cozinha, preparei um cappuccino, peguei um livro e me sentei em minha poltrona. adormeci. quando acordei na manhã seguinte ele estava tomando café na cozinha. conversamos um pouco. é um sujeito legal. talvez até nos tornemos amigos.

e assim fomos convivendo, eu, minha esposa e seu amante. mas este morreu na noite em que cheguei em casa e o flagrei sentado em minha poltrona.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

autógrafo

mané zumbi era um prodígio no campo, dotado de excelente visão e de um chute forte e certeiro. era capaz de fazer a bola passar raspando entre a mão do goleiro e a trave.

mas sofria por ser negro. naquela manhã animada, por ter cometido uma falta menor, uma onda de vaias racistas de sua própria torcida o deixou perplexo. mas ele percebera o olho do furacão de ofensas, o já conhecido kurt k. klaus, todo pintado nas cores de seu país, óculos escuros e gorro bufante, bem no centro da plateia. ele iniciara a onda de impropérios.

logo depois zumbi fez um dos gols mais belos de sua carreira e foi ovacionado pela mesma torcida. pegou a bola, arranjou uma caneta, autografou e chutou para a arquibancada, acertando em cheio a bochecha de klaus e fazendo pular dois dentes de sua boca.

sábado, 20 de setembro de 2014

oftalmorfose

os olhos se movem em convulsões gelatinosas, como uma lagarta devorando folhas, e folhas de papel eles devoram para alimentar a insaciável fome por conhecimento de uma larva recém-saída do ovo, de uma alma recém-caída do éden.

é hora então de repousar empanturrados, envoltos pelas pálpebras, na crisálida dos sonhos que cultiva a química da metamorfose, a reparação das memórias pela reflexão profunda.

as pálpebras eclodem, o casulo irrompe as novas cores criadas pela mistura de saber e introspecção, pelo balanço entre o alimento e o repouso regenerador que gera nova vida, novas ideias, uma borboleta de asas cor de córnea-e-íris, pronta para voar por um novo mundo, pois o mundo se renova quando os olhos que o vêem se transformam.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014



naquele dia, algo me atingiu de tal forma que senti meu corpo numa espécie de moinho, fui tomada por uma dor que latejava a alma, e eu frágil, recolhi-me. o frio que vinha em seguida não era uma brisa boa que buscamos quando abrimos a janela e deixamos ela passear pelos cômodos da casa, fazendo as cortinas dançarem num ritmo ora lento, ora soberbo e apressado, como um jazz. era um frio que encolhe a gente, faz-nos íntimos dos edredões, mas sem o prazer de um filme e pipoca.
da minha garganta, parecia descer espinhos, o nó era constante, o gostos amargos eram, mesmo se o mais doce dos chocolates viessem a derreter na minha boca. escorria a viscosidade que tudo isso causa, involuntariamente, expulsando o que há de impuro em mim, tomei uma dose revigorante para a vida seguir, vencendo os males que os dias trazem, inevitavelmente na poeira, no mofo do que está esquecido, no contato com o mundo.
gripe maldita! fui à drogaria, voltei e deitei, sem disposição.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

a festa


graça foi  convidada para uma festa de aniversário. ela não tinha carro e precisava de carona, logo, seus amigos tentaram persistentemente achar alguém que a levasse.
pedro, enclausurado e deprimido em casa, se sentindo esquecido e mal amado, recebe então uma ligação, para sua surpresa:
-pedro? olá, aqui é constância, gostaria de convidá-lo para minha festa que será hoje à noite, e já aproveitando, peço-lhe carona para uma amiga, o que acha?
-eu? para sua festa? não sei....ando meio pra baixo, sinto umas dores e....
-ora, vamos! sem você não tem "graça"!
feliz e surpreso por sua presença ser imprescindível, pedro arrumou-se e foi à festa com um sorriso largo!
todos vibraram com a chegada de graça.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Insight




Ao me acomodar para dormir veio-me um insight que com certeza resultaria numa excelente pequenitude. Sem querer me arriscar a perder tal preciosidade ao acordar com a costumeira amnésia, apelei ao meu companheiro, meu "hd externo"', compartilhando com ele a ideia. Entretanto, acordamos desmemoriados e ficamos horas,  inutilmente tentando trazer de volta o esquecido. Reconstruímos todo o cenário anterior, as conversas, os contextos. Nada funcionou. Estava perdido para sempre meu conto de inspiração divina que poderia, no mínimo,  constar do cânone literário brasileiro.
O que restou foi o fragmento  de um  sonho que, claro, não vou  publicar aqui por não se adaptar ao estilo a que se propõe o blog, como vocês podem perceber:
"Na sessão extraordinária para discutir porcaria nenhuma, sobre patavina de nada, parlamentares trocam saudações afetuosas entre si :'vossa excelência é um cagão, um grandessíssimo fdp' ; 'Vossa excelência é um salafrário, um filho de uma ronca e fuça', 'vossa excelência é um líder?? vossa excelência não passa de um larápio, um meliante'.
De repente,  um dos bichões da fila esquerda olha pro lado e exclama a plenos pulmões: 'oxente, alguém cagaram no recinto! Exigimos  mais respeito nesta merda!'. Ao que o grandão da direita retruca: 'vamos fazer uma moção de desagravo, haja vista a extrema deselegância retórica, equivocada e escatológica dos safados nobres companheiros, que fere mortalmente as normas regimentais desta bosta de Casa de mãe joana. E, sem mais, para concluir os trabalhos, em nome do  excelentíssimo senhor presidente, - que precisou se ausentar por uma causa justa -, visando restabelecer a ordem,  apelo ao fantasma cagão, que se apresente sem delongas, sob pena de todos poderem recorrer ao direito de resposta, além de, daqui para a frente, obstruir quaisquer  pautas de votação nesta merda de casa, até que o vagabundo se retrate, em nome desse povo brasileiro de bosta!' "